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Compartilhando a recuperação de ecossistemas: uma parceria
única entre Austrália e Brasil
Parcerias podem nos ajudar a realizar o que não conseguimos fazer sozinhos. O
processo de compartilhar experiências e conhecimento entre Austrália e Brasil,
no campo da recuperação de ecossistemas, não somente desenvolve uma nova perspectiva
no tema, como dá a oportunidade de que outras pessoas se beneficiem de experiências
de sucesso.
Brasil e Austrália, os dois maiores países do hemisfério sul, já foram conectados
como parte da Gondwana. Pesquisas sugerem que o desenvolvimento de marsupiais na
Austrália dependeu dessa conexão ancestral entre as duas massas de terra.
Ambos os países têm uma biodiversidade extraordinária e grandes áreas praticamente
não ocupadas nas suas regiões centrais. Os dois países também são similares na alta
densidade populacional na região costeira, causando uma pressão grande sobre os
ecossistemas costeiros.
No Brasil, a maior parte da Mata Atlântica já foi devastada, enquanto que a
Austrália também já perdeu grande parte de sua floresta original. O desmatamento sem
medidas nos dois países consiste no maior desafio. As capitais nacionais da Austrália e
Brasil se localizam no interior do país, Canberrra e Brasília, e é onde esse desafio
deve encontrar respaldo político.
Não se pode esquecer que ambos os países vem de uma colonização européia que subjugou
as culturas indígenas, formando uma sociedade composta de migrações multi-culturais.
Mesmo que Brasil tenha sido um elo durante a longa jornada marítima entre Europa e
Austrália, a isolação cultural e geográfica entre os dois países vinha limitando uma
relação mais estreita até recentemente.
No Brasil o processo de colonização começou há 500 anos, diferentemente da Austrália,
onde esse processo começou há 200 anos. No entanto em ambos os países a devastação
ambiental e suas conseqüências são significativas. Nos dois casos, os impactos ambientais
devem ser mitigados e existe uma necessidade urgente de recuperação de ecossistemas.
O interesse comum de um grupo de australianos em visitar o Brasil e de brasileiros em
visitar e trabalhar na Austrália foi a base de uma série de reuniões em 2000-2001 para
discutir um seminário em Recuperação
Ecológica em Florianópolis em 2002. Nessa etapa o envolvimento de Nádia Pietramale
e Marinez Scherer foi crucial pelos seus conhecimentos e rede de trabalho, sendo fundamental
para o sucesso do seminário.
O seminário foi organizado por Willoughby City Council, Australian Association of
Bush Regenerators, Landscape Explorer Society, Instituto Ambiental Ratones, Fundação
de Meio Ambiente de Florianópolis (FLORAM), Centro de Estudos Marinhos (NEMAR) da
Universidade Federal de Santa Catarina e outros colaboradores individuais. O evento
teve apoio prático de Gosford City Council, FLORAM, Habitasul Empreendimentos Imobiliários
e Ambiens Consultoria e Projetos Ambientais.
Esse seminário gerou uma colaboração única entre brasileiros e australianos, organizações
e profissionais, que contribuíram com conhecimento e entusiasmo de maneira voluntária.
A maioria dos profissionais australianos eram da indústria de regeneração de matas nativas,
professores do TAFE (curso de regeneração de matas nativas) e funcionários municipais. Já
os brasileiros eram professores (Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade do
Vale do Itajaí), funcionários de agências ambientais a nível municipal, estadual e federal,
organizações não-governamentais, estudantes, consultores técnicos e empregados de companhias
privadas. Mais de 70 pessoas participaram do evento.
Muitas lições foram compartilhadas e os participantes reconheceram os temas, problemas e
frustrações em comum associados à gestão ambiental nos dois países. Os australianos
aprenderam que a legislação ambiental brasileira, ainda que complexa e forte, muitas vezes
não é seguida.
Na experiência de muitos participantes dos dois países notou-se que o controle ambiental
muitas vezes sucumbe a pressões políticas que visam facilitar o desenvolvimento econômico.
Os importantes papéis dos voluntários e dos governos municipais na Austrália contrastaram
com a necessidade de recursos financeiros para os projetos de revegetação no Brasil, alguns
dos quais alcançam resultados espetaculares.
A preocupação australiana com as espécies exóticas invasoras se mostrou ser muito maior
do que a dos brasileiros que tendem a encarar essas espécies como um recurso a ser utilizado.
Restauração de cursos de água, gestão de águas pluviais e retentores de resíduos sólidos
não eram muito conhecidos no Brasil, talvez porque a necessidade de tratamento de efluentes
ainda seja um problema mais urgente a ser resolvido.
Os visitantes ficaram impressionados pelo uso eficiente de garrafas de plástico que antes
poluíam os manguezais e depois serviram de base para a propagação de mudas e também pela
forte relação entre os programas sociais e educação ambiental.
Os visitantes também notaram que a produção de material interpretativo e outras iniciativas
de educação vêm se desenvolvendo rapidamente. O forte envolvimento de ONGs frequentemente faz
com que essas organizações realizem atividades que seriam papel dos governos na Austrália,
especialmente em engajamento da comunidade em projetos ambientais. Falta de recursos financeiros
é um problema universal, mas os australianos têm menos problemas em relação a esse tópico.
Os processos de discussão, debate, apresentações e visitas a campo durante uma semana deu aos
participantes a oportunidade de adaptar as novas idéias a sua própria realidade. Por
exemplo, o grupo de australianos assistiu a um espetáculo teatral no meio da floresta.
Essa experiência influenciou a decisão de usar teatro no projeto
“Streets to Creeks”,
projeto de educação ambiental na Sailors Bay, Willoughby. As apresentações foram muito
populares com a comunidade e trouxeram mensagens ambientais focadas na conscientização da
problemática da poluição das bacias de drenagem.
O seminário que ocorreu em Florianópolis em 2002 foi a base para o desenvolvimento de
uma parceria de benefícios mútuos e enorme potencial. O projeto original foi fruto da
iniciativa de indivíduos, mas a partir desse seminário desenvolveu-se a idéia de formar
uma organização que mantivesse o intercâmbio entre Brasileiros e Australianos. Estava
formada a Fundação Ambiental Brasil Austrália – FABA.
Uma página de internet - www.cleanwater.net.au - foi desenvolvida para apresentar os
resultados desse intercâmbio e para ser dar acesso a outros links.
Algumas pessoas do grupo que foi ao Brasil tiveram a oportunidade de se encontrar outra
vez na apresentação do conceito do projeto de intercâmbio na
Conferência Internacional do Landcare realizada
em Darwin, 2003. O grupo também teve a oportunidade de contribuir com a oficina de trabalho
sobre o projeto de Landcare Internacional.
Um interesse significante no conceito de Landcare veio do sul e leste da África, Filipinas e do
mais novo país do Timor do Leste.
Com graves problemas ambientais os participantes do Timor do Leste tiveram grande interesse
no projeto de intercâmbio entre Brasil e Austrália e mais informação foi enviada ao Timor
do Leste, como o Projeto TAMAR de proteção das
Tartarugas Marinhas.
O Segundo seminário também foi realizado em Florianópolis, Brasil, em 2004 -
Cidades Costeiras Sustentáveis.
Em outubro de 2004 representante do Instituto Ambiental Ratones
– uma ONG brasileira ativa
em projetos ambientais – e membros da equipe de gestão de matas nativas do Willoughby City
Council assinaram um Termo de Cooperação (link to PDF cooperative agreement Portuguese) para
firmar ainda mais o intercâmbio de idéias, informação e conhecimento entre Brasil e Austrália,
focando na Gestão Ambiental. Esse Termo de Cooperação foi o resultado de anos de trabalho
em equipe e amizade entre os participantes.
O Termo de Cooperação foi assinado no Seminário Cidades Costeiras Sustentáveis em
Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. Mais de 150 participaram do seminário que teve a
apresentação de 50 palestrantes, incluindo representantes do Willoughby City Council. As
idéias iniciadas no seminário inaugural em abril de 2002 encontraram continuidade no Cidades
Costeiras Sustentáveis.
Os temas chaves apresentados foram o Plano de Gestão Urbana das Matas Nativas de Willoughby, o
sucesso em recrutar, treinar e supervisionar voluntários no programa BushCare. Outros tópicos
cobriram legislação ambiental, políticas de gestão costeira, recuperação ambiental de dunas,
educação ambiental e visitas a campo para complementar as apresentações. A programação pode
ser acessa em www.iarbrasil.org.br/cidades/english.htm.
Os patrocinadores do seminário foram: Caixa Econômica Federal, Eletrosul, Badesc, Brasilinvest,
ABRAMPA, BRDE, com apoio do Willoughby City Council, Fundação Pedro Jorge de Melo e Silva,
Governo de Santa Catarina, FLORAM e Jurerê Beach Village. Os organizadores foram a Escola
Superior do Ministério Público da União (ESMPU), Procuradoria da República no Estado de Santa
Catarina e o Instituto Ambiental Ratones (IAR).
Em março de 2005 essa experiência única (Download Conference Paper)
foi apresentada no Beyond Declaratios: Working Partnerships for Sustainability National
Conferece por um representante do Instituto
Ambiental Ratones e um representante do Willoughby City Council.
Em abril 2005 uma australiana voluntária realizou trabalhos no Instituto Ambiental Ratones,
ajudando a escrever um projeto de educação ambiental para uma comunidade costeira e atualmente
um técnico em recuperação de matas nativas de Willoughby planeja fazer trabalhos voluntários
no Instituto Ambiental Ratones em Florianópolis.
A proteção, preservação e interpretação de áreas naturais e a recuperação áreas degradadas
podem se beneficiar dessa troca de experiências a nível global. Esse projeto demonstra como
vale a pena trabalhar e aprender juntos.
Uma rede de pessoas e organizações pode promover um uso dos recursos naturais de maneira
mais sustentável. Particularmente, pode ajudar a implantar ações práticas para que se alcance
esse objetivo.
Essa parceria entre brasileiros e australianos pode vir a desenvolver a fim de responder
às necessidades dos envolvidos e poderá ajudar a achar soluções para os problemas ambientais
que são de todos. Certamente, até agora, a parceria ajudou a ampliar os horizontes de todos
aqueles envolvidos.
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